
Todos sabem que eu sou fã declarada de Alexandre Desplat...então quando este projeto foi anunciado há mais de três anos, as minhas expectativas eram realmente altas...não apenas por ele ser um dos meus compositores favoritos, mas por este filme ser dirigido pelo meu diretor favorito, aquele o qual eu sempre anseio em ver um longa: Terrence Mallick. A ansiedade então foi se transformando em angústia, quando simplesmente o filme não era lançado- de 2009 até aqui, ele foi sendo transferido de ano a ano, até que finalmente ele irá estrear em Cannes esta semana, sendo que logo após irá ser lançado nos cinemas mundiais. Quanto à trilha, ela finalmente está sendo lançada e o que eu posso dizer é que é o melhor trabalho de Desplat justamente por ser o mais experimental, diferente, e entregue que ele já fez em toda sua carreira. Com um score que lembra o estilo de compositores como Stravinsky e Smetana, ainda é cedo para se falar em melhor trilha do ano, mas dificilmente haverá um trabalho tão completo e único quanto este.
O longa que ainda tem a trama cheia de segredos, contará a história de Jack (personagem de Sean Penn) desde a sua infância até a fase adulta, através do desenvolvimento do seu relacionamento com seus pais, que serão vividos por Brad Pitt e Jéssica Chastain. Tudo claro, envolvido em uma trilha filosófica, mística e misteriosa, que promete ser o grande filme de 2011.
Mas vamos à trilha- com 12 faixas, Desplat fez um trabalho totalmente inserido no conceito do filme praticamente traduzindo em notas a trama e tudo que há nela, se tornando um dos alicerces do longa, através de melodias únicas e geniais.
A primeira faixa do longa é “Childhood” que é extremamente sensível, mas de grande alcance, sendo basicamente dominada por um piano em dinâmica pianinho que soa como se fosse uma introdução para a explosão de ritmos e sons que estão por vir.
Já “Circles” é uma verdadeira odisséia, com mais de 11 minutos de duração, é praticamente uma experiência sensorial, onde através da melodia pode-se sentir a trilha, sendo um dos pouquíssimos scores dos últimos anos que consegue nos transportar para outro lugar. Durante todo o andamento da faixa consegue-se absorver o que cada melodia e passagem quer dizer- seja pelos cellos e órgãos que ecoam à uma viagem no tempo, ou pelas flautas e cordas que traduzem a beleza da natureza, sendo que esta faixa é praticamente uma atmosfera de lugares, sentimentos e emoções, onde denota-se a entrega total de Desplat ao projeto em questão. Sem defesas ou trejeitos, apenas a doação total da trilha perante o filme.
Já “Clouds” soa inicialmente como se os instrumentos estivessem chovendo, onde cada nota parece ser uma gota de chuva, para que posteriormente as cordas invadam a faixa em uma passagem sutil e bela, criando uma metáforas através da harmonia da faixa. Depois o score segue-se com “River”, que é pura poesia, começando com um piano evocando a mais profunda sensibilidade do ser humano, em uma melodia soberba e profunda, que aguça todos os nossos sentidos.
“Awakening” inicia-se com um piano que após irá se sobrepor às cordas. Mas o seu segredo mesmo está no seu final, onde a orquestra parece explodir com uma sonoridade que remete à um nascimento, uma epifania, algo transformador e definitivo. Posteriormente a trilha segue com “Emergence of life”, onde mais uma vez se ultrapassa os limites entre uma simples trilha sonora à um verdadeiro corpo do ambiente o qual está se desenvolvendo, assumindo seu posto de peça fundamental ao impacto das situações que se sucedem no filme.
Destaca-se também “Light and Darkness” que brinca com os instrumentos, alternando o som grave dos cellos ao mais agudo dos violinos, onde no inicio há uma referencia à canções de ninar, que vai crescendo e tomando corpo, sendo que no final as cordas brilham com um som iluminador, etéreo e puro.
Em “Good & Evil” há o tema do filme tocado de modo bem nostálgico e triste através de um violino praticamente em estágio de afinação de modo bem natural e virtuoso, sendo que após é acompanhado por um cello resultando em um equilíbrio perfeito. Outra grande faixa é “Motherhood”, onde as cordas dominam a faixa com uma melodia triste, nostálgica, amorosa e encantadora ao mesmo tempo, soberana e elegante.
Já “City of glass” assim como em “Childhood” é o piano quem tem mais destaque, de modo muito lento, suave, mas ao mesmo tempo dilacerador, sendo que novamente a faixa conclui-se com cordas, mas desta vez de maneira muito delicada e discreta. E “Fatherhood” talvez seja a faixa mais elegante da trilha, com uma sonoridade fina e gostosa de ouvir, bem natural e espontânea.
Após ouve-se a poderosa “Temptation”, que parece traduzir antíteses através das suas notas- entre sons luminosos e obscuros, suaves e fortes, abertos e fechados, há um choque de impressões intensas transpostas através da musica, complexa e simples ao mesmo tempo.
E para fechar com chave de ouro, há a doce “Skies” totalmente espontânea e graciosa, muito delicada e cativante, que se torna inesquecível por causa de um solo de violino totalmente harmônico e fantástico, que é acompanhado por uma orquestra tocante e sensitiva, totalmente completa e verdadeira.
É então uma trilha para se experimente, sentir, sendo praticamente uma jornada à mais profunda beleza da alma, de percepção única e marcante, que, independente de qualquer premio ou situação, consegue ser maravilhosa pelo que realmente é: incomparável e tradutora da beleza do ser.
Número de estrelas: 5