quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Contra Corrente



Houve um tempo, especialmente até alguns anos atrás, no qual eu regularmente me pegava pensando, em uma autocrítica, se os filmes com temáticas homossexuais contavam com certa simpatia imediata de minha parte. A conclusão foi simples: sim e não. Sim, à medida que, por ainda ser um tabu, filmes bobos e leves como De Repente Califórnia, comédia romântica ao pé da letra do termo, ainda são raridades e acabam ganhando alguns pontos comigo. Por outro lado, não, pois quando o filme é ruim, independente da temática, eu acabo metendo o bedelho (como o superestimado Minhas Mães e Meu Pai e o covarde-sem-ponto Do Começo ao Fim).

Digo isso por um motivo muito simples... Ainda não sei explicar a razão, mas Contracorrente, apesar de sua obviedade e deslizes de seu roteiro, me ganhou por completo. Refiz-me tal crítica e pude observar que não se tratava disso, mas sim daqueles pontos que, apesar de termos reclamações pontuais e precisas, somos embalados por uma narrativa sem precisarmos de um grande motivo. Felizmente, não se trata de um guilty pleasure, longe disso.

Miguel (Cristian Mercado, que sustenta o filme com invejável facilidade) é pescador de uma comunidade humilde, casado e prestes a ser pai. Além das funções que lhe cabe, ele dedica parte de seu tempo livre a uma transgressora paixão por Tiago (ou Santiago, o filme nunca se resolve, mas, no caso, o ator Manolo Cardona, também ótimo), fotógrafo e artista plástico “estrangeiro” que visita o vilarejo com finalidades artísticas, mas ali se finca para ficar perto de seu amor. E, apesar do conflito óbvio na trama, ela se desenvolverá de tal maneira surpreendente que seria desrespeitoso revelar mais alguma coisa (e, por favor, evitem críticas na internet: ninguém soube respeitar o segredo).

Acontece que tal desenvolver do filme, apesar de uma grande inovação na temática gay, é um tanto frustrante. Seguindo passos óbvios, já sabemos de antemão todos os rumos possíveis à trama, e eles acontecerão, um a um. Mesmo com essa evidente reclamação, devo manter que é um filme cativante. Da atuação de seu elenco principal (e, sejamos honestos, inclui-se aí a beleza física do casal protagonista) à intimista fotografia litorânea do Peru, o filme vai nos ganhando aos poucos, e talvez ainda mais após o seu final (clichê). A obviedade do roteiro é sensibilizada se considerarmos que a produção voltada às temáticas gls na América Latina é deveras limitada e, assim sendo, temos uma grata surpresa.

E devo dizer que, apesar de limitado e acovardado em alguns aspectos, o filme tem em si duas sacadas muito interessantes: a primeira, um belo desenvolvimento sobre visibilidade (ou invisibilidade), tendo uma simples cena na qual o casal anda de mãos dadas pelo vilarejo o seu ponto alto. A segunda está em seu conceito de estrangeiro: a origem de Santiago nunca é explicitada, e seu deslocamento naquele contexto se deve muito mais à sua profissão artística e a sua comentada homossexualidade do que a alguma questão óbvia de território. Pontos positivos, além das pontuais alfinetadas à religião.

Escalado para o Festival Mix 2010 – que vem se mostrando a cada ano mais interessante e bem organizado – o filme entrou em circuito “comercial” em abril de 2011, e como sua distribuidora – a bem-intencionada Festival Filmes – ainda é pequena na tentativa de desbravar o mercado nacional de DVDs, recomendo que o filme seja baixado na internet para que possa ser conferido.

Nota: 7,0

A partir deste parágrafo, ler apenas caso já tenha visto o filme ou se não se importar com spoilers:



Há alguns comentários sobre a semelhança desta obra com Dona Flor e Seus Dois Maridos. Sim, esta é a surpresa do filme: Santiago, o fotógrafo, morrerá mais ou menos aos 40 minutos de projeção - contudo, seu espírito não encontra liberdade nem paz, recorrendo sempre à proximidade de Miguel. Aqui há um ponto bacana de ser debatido: a abordagem espiritual do projeto é justamente seu ponto falho. Além de toda a trama óbvia sobre o luto e a aceitação de si, há um impasse no roteiro se ele busca uma trama sobrenatural, com aparições reais da alma de Santiago, ou se é um drama psicológico, e o personagem aparece apenas quando invocado pelo seu amante. Não é bobeira distinguir as duas possibilidades, uma vez que cada uma daria contornos próprios à trama, e é assustador como o roteiro se divide entre ambas. Contudo, apesar da diferença óbvia (Dona Flor é uma comédia rasgada), creio ser uma inspiração/referência inegável. Surpreendentemente, Javier Fuentes-León aparenta ser um fã de novelas brasileiras, não apenas dedicando um breve diálogo do filme para homenageá-las como centrando na novela O Direito de Amar uma bonita metáfora perto do desfecho da trama. Então concordo com os espectadores que pontuaram o fato de que a semelhança entre ambas as obras transpassam a mera coincidência. 

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